Marisa Oliveira

︎︎︎ ︎︎︎ ︎


Desenho de Observação
professor
Valério Ricci Montani

Nasci rio pequeno,

Nasci árvore. Uma oleácea.

Antes disso, voava.  Rola, minha avó.

Água, verde, terra e asas.

Devo ter chorado quando se fez a luz. 
Não lembro.

Mas lembro das primeiras palavras, aquelas que fincaram raízes no terreno fértil
         da imaginação, mesmo antes de ganharem voz.  Viviam à mão, à distância de um                    
        olhar.  Nos livros, nas crônicas esportivas, nas notícias dos jornais.

Assim, tornei-me palavra.

Riacho saí da madre muitas vezes, corri em jorro, deslizei serena. 

Ao descer a correnteza, fui colhendo outras palavras.  Sempre mais.

As sementes, fui jogando nas margens. 
Em se plantando tudo dá, dizem.

Às vezes vingavam. Outras vezes, não.

O fato é que durmo e acordo com elas. As que existem apenas em pensamento, as que
se tornam matéria viva. As minhas e as dos outros.

Sei que uma boa terra produz plantas, frutos e sementes e quem é ribeiro não
                         descuida dos
                                 verdes, nem das folhas acinzentadas, como aquelas das oliveiras. 

Esgueiro-me por muitas frestas, água que sou.

E, seguindo o curso da minha própria natureza, outro dia, joguei as amarras no grafite,
                                              no carvão, no lápis de cor.

E vieram os traços e vi que isso era bom.

E vieram as formas, e vi que isso também era bom.

Traços não existem sem sombras. 

Daí foi um pulo para descobrir as sombras que me definem. 

Como consequência, fez-se a luz.  Transformei-as em escritos, que por sua vez
     desembocaram apaixonadamente na terra encantada da literatura.  Mas essa é
                                                                                                            uma outra estória.

As formas, os traços, os esfuminhos reinaram absolutos por pouco tempo. 

As palavras, sempre intrépidas e destemidas, companheiras de toda uma vida,
     não se deixaram ficar de lado.  Sorrateiras, começaram a brotar
     nas curvas, nas retas, nos pontos, nos traços, dando provas de que forma é
               conteúdo que vem à tona.

Com eles, tenho me permitido voar, afinal, herdei asas.

No princípio era o verbo. 

De lá pra cá, fizeram-se muitas coisas. 
O firmamento, o dia e a noite, a Amazônia. 

Nasci rio pequeno,

Nasci árvore,

Nasci alada.

Nasci Amazônia.

Isso é apenas o esboço de uma criação.


Marisa Oliveira
Em defesa da Amazônia
Desenho de Observação



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Desenho, Rocha, Terra, Planet, Simulacro




Terr ar rasada | Marisa Oliveira | 2020 | Carvão s/papel
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Sujeito oculto em palavras | Marisa Oliveira | 2020 | Nanquim s/papel 
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Peyton’s Chloë Sevigny (Gold) 2001 portrait by me | Marisa Oliveira | 2020 | Lápis de
cor s/papel
Retrato





Selfiando na Amazônia | Marisa Oliveira | 2020 | Lápis de cor e Aquarela s/ papel Autorretrato, Preservação, Meio ambiente, Política





O olho que vê | Marisa Oliveira | 2020 | Grafite s/ papel
Percepção





O olho que vê (detalhe) | Marisa Oliveira | 2020 | Grafite s/ papel
Percepção 





O olho que vê (detalhe) | Marisa Oliveira | 2020 | Grafite s/ papel
Percepção